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LIÇÃO 13 - A EVANGELIZAÇÃO INTEGRAL NESSA ÚLTIMA HORA

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O Evangelho Integral do Reino Bryant Myers De vez em quando é bom perguntar: O que é o Evangelho? Claro que não precisamos fazer essa pergunta como quem tem dúvida – o Evangelho não muda. Mas o problema é que nós mudamos e com o tempo pode mudar também a nossa maneira de entendermos a Bíblia. Talvez por isso Jesus vivia a nos lembrar que temos um problema de vista e de ouvido. Então acho que vale a pena perguntar: o que entendemos por Evangelho? Quem%acredita%no%quê? Para muitos, a resposta chega bem rápida: Evangelho significa perdão de pecados, a vinda, a morte e a ressurreição de Jesus Cristo para que tenham vida eterna os que disseram "sim" à proposta dele. Para outros, ligados às tradições principais, a resposta é: Jesus e seu reino. Menos interessados na historicidade de Cristo, esses irmãos costumam dizer que Jesus veio estabelecer um tipo diferente de ordem social caracterizada por justiça, paz e reconciliação. Existem também os da tradição pentecostal e carismática. Para estes a resposta é ainda mais diferente: Jesus veio para que conhecêssemos Cristo e seu poder em nossa vida cotidiana. Não precisamos mais ser escravos de nossos temores, de nossos vícios, de nosso íntimo sofrimento. Qual%o%problema? Ron Sider insiste em afirmar que, se realmente desejamos uma compreensão bíblica do Evangelho, nossa definição precisa refletir o tipo de coisas que Jesus tinha em vista quando falava acerca do Evangelho. Ron observa que "Jesus, praticamente todas as vezes em que falou do Evangelho, também referiu-se ao Reino de Deus." O Reino de Deus foi o assunto do primeiro sermão de Cristo (Marcos 1:14) a única coisa que Jesus chamava de evangelho (Mateus 4:23) e o tema por ele enfocado quando ministrou aos seus discípulos nos seus últimos quarenta dias sobre a Terra (Atos 1:3). Jesus dizia que no Reino reside a chave da compreensão de seu ensinamento (Lucas 8:10). No Sermão da Montanha, ele afirma que o Reino de Deus é a primeira coisa que deveríamos procurar, e que tudo mais viria na seqüência (Mateus 6:33). A vinda do Reino é a primeira súplica a ser feita na prece que ele nos ensinou (Mateus 6:10). Lucas fecha o livro de Atos nos dizendo que "Paulo, ousadamente e sem empecilho, pregou o Reino de Deus e ensinou acerca do Senhor Jesus Cristo (Atos 28:31). Jesus chegou a dizer que “este evangelho do Reino será pregado em todo o mundo como testemunho a todas as nações, e então virá o fim” (Mateus 24:14). Nenhuma parte do Evangelho Integral, separadamente, iguala-se o Evangelho em sua integridade. Se Jesus associa ao Evangelho a idéia do Reino de Deus, devemos fazer o mesmo. Isso coloca em questão todas as três caricaturas que eu apresento no início, carregando um pouco no traço, admito. O Evangelho como reino é perdão de pecados, e também apelo a uma ordem social diferente, sobre ser ao mesmo tempo uma questão de poder espiritual. 2 Mas antes que eu prossiga no desenvolvimento desse tema, há uma observação que eu gostaria de acrescentar acerca do Reino de Deus. A%pessoa%e%o%reino E. Stanley Jones, o missionário enviado à Índia que moldou a missiologia de Lesslie Newbigin, insistia que não devemos nunca separar da pessoa de Cristo do Reino de Deus. Por quê? Porque Jesus é a incorporação do Reino de Deus. Aqui a melhor informação que nos chega é a de que o Reino de Deus não é um conceito teológico, mas um nome com um rosto humano. Melhor que isso: essa pessoa veio e viveu entre nós, “tentada de todas as maneiras, assim como somos” (Hebreus 4:15). A tese de Jones é de que o Reino de Deus de fato se aproximou, mas o fez na forma de uma pessoa. “Jesus é o Reino de Deus, calçando sandálias e saindo a caminhar”, disse ele. Rumo%a%uma%compreensão%holística De que jeito então poderíamos associar numa mesma reflexão a pessoa de Jesus e o Reino de Deus? Que tipo de moldura evitaria a insuficiência das caricaturas que eu pintei anteriormente? Quer-me parecer que o evangelho de Marcos nos fornece algumas pistas importantes, no tocante ao chamamento dos discípulos. Marcos nos informa que Jesus “escolheu doze homens - aos quais denominou apóstolos -, para que permanecessem ao seu lado, sendo depois por ele mesmo enviados a outras partes, a fim de que pregassem e tivessem autoridade de expulsar demônios” (Marcos 3:14-l5). Chegado o momento da partida, estando já os apóstolos preparados para o seu primeiro solo evangelístico, Marcos nos relata que “eles foram e pregaram exortando o povo ao arrependimento. Expulsaram então muitos demônios, ungiram com óleo a muitos enfermos e os curaram” (Marcos 6:12-13). O pessoal envolvido com missões aprende depressa a atuar na área de pregação, cura e exorcismo. Também queremos partir em missão e fazer a mesma coisa. O que fazemos é moldado por nossa tradição cristã. O evangélico, profundamente interessado na verdade da Boa Nova, inclina-se mais para a pregação, para o evangelho como palavra. Os interessados na questão social, chocados com o desprezo pela justiça notório em tantos crentes, passam rapidamente para o lado da cura e da prática de boas obras. Os pentecostais, preocupados com a disposição com que tanto os evangélicos como os adeptos do credo principal se agarram à convicção de que a partilha dos dons espirituais se esgotou no primeiro século de nossa era, se voltam para o exorcismo, ou seja, para o evangelho como sinal. As duas narrativas apostólicas registradas no livro de Marcos sugerem que todos estão certos e errados ao mesmo tempo. Para Jesus, o evangelho está vinculado ao Reino de Deus, que se estende a todos os domínios da vida. O Evangelho integral do Cristo vivo é evangelho como palavra, evangelho como obra e evangelho como sinal. Mas há mais. Quebrado%e%Perdido Kwame Bediako, amigo e teólogo em Gana, sentou-se ao meu lado uma tarde, em Acra, e disse: “Vocês, ocidentais, cometem uma tolice. Acham que, dissecando um cão e estudando 3 cada parte separadamente, podem chegar a uma compreensão exata do que é ele. O que é pior ainda, às vezes parecem acreditar que, remontando o animal, recolocando cada parte em seu lugar, tê-lo-ão novamente vivo. Mas não é verdade. O que vocês podem conseguir fazendo isso é um cão morto. Quando se puseram a dissecá-lo, vocês perderam de vista a parte mais importante: o fato de que um cão é um ser vivo!” Os seres vivos deixam de existir quando os esquartejamos. Quando separamos Jesus do Reino, a vida do Evangelho se perde e assim reduzimos o Reino a uma ideologia. Eis a opinião de Jones: quando separamos o evangelho como obra do evangelho como palavra, ou do evangelho como sinal, a vida e a verdade do Evangelho também nos escapam. Por quê? Nenhum aspecto do Evangelho integral, separadamente, iguala o Evangelho na sua integridade. As palavras conservam em torno de si um halo de ambigüidade enquanto o sentido de nossos próprios termos não é explicitado pela ação. Afinal de contas, na América, quatro em cada cinco pessoas se dizem cristãs. Mas só quando realmente agem como tais é que temos certeza do que querem dizer. Também as ações conservam esse halo de ambigüidade em torno de si, enquanto as palavras não identificam o motivo e o sentido que se escondem por trás delas. Os budistas e ateus de bom caráter podem trabalhar pela justiça e empunhar a bandeira do ambientalismo. Só as palavras explicam que buscamos a justiça e o bem-estar do ambiente porque seguimos um Senhor que exige isso de nós. E os sinais manifestam a mesma ambigüidade. O diabo também forja os seus milagres. Palavras, obras (ações) e sinais, tudo isso deve operar em conjunto como mensagem viva, apontando na direção de um Senhor vivo. É por isso que uma compreensão holística do Evangelho, inseparável da compreensão do Reino, é de importância tão fundamental. Mas há mais ainda. Unindo%o%ser%e%o%fazer Lembra-se da importância de nunca separar a pessoa de Jesus da idéia do Reino de Deus? Essa é a parte mais importante deste diálogo. Quando citei Marcos, a propósito da convocação dos apóstolos por Jesus, você percebeu a razão da chamada, as palavras que eu saltei tão depressa para entrar logo no comentário do fazer evangélico? Jesus disse que ele convocou os discípulos para que pudessem estar com ele. Estar com ele precede o exorcismo, a pregação, a cura. O Reino de Deus é um convite a uma forma de relacionamento, não a um programa, nem a uma ideologia indiferentemente de ser o programa evangelismo, ação social ou guerra espiritual. Somos convidados a estar com o Cristo vivo. Essa é a melhor notícia que há. Cristo provê ao sustento de nosso ser antes de pedir que obedeçamos fazendo. A dicotomia de ser e fazer não se encontra no Evangelho. Nem há de ser de outra maneira. Não podemos fazer o que não somos. Ser é sempre condição prévia do fazer. Nenhuma evangelista será usada pelo Espírito se ela não estiver viva em Cristo. Nenhum ativista social pode amar os famintos de amor a menos que esteja sintonizado 4 com aquele que é Amor para nós. Nenhuma curadora ou exorcista pode proferir o nome dAquele que ela não conhece e de cujo poder nunca experimentou. O%evangelho%do%Reino A imagem da mensagem evangélica como uma pirâmide me parece valiosa. O topo da pirâmide é estar com Jesus, viver em e com o Senhor vivo. Essa relação confere vida a tudo que se encontra embaixo. Cada uma das quinas da pirâmide é uma dimensão do evangelho: a pregação, ou evangelho como palavra, a cura, ou evangelho como obra, o exorcismo, ou evangelho como sinal. O evangelho-como-palavra compreende ensino, pregação, o fazer teologia. Evangelho-comoobra significa trabalhar pelo bem-estar físico, social e psicológico do mundo que Deus criou. Evangelho como sinal significa orar para que haja sinais e maravilhas, essas coisas que só Deus pode fazer; significa também a igreja servindo como sinal vivo de um reino que já é chegado, mas que ainda não chegou completamente. Se despedaçarmos a pirâmide, a soma dos seus fragmentos não será mais uma pirâmide, evidentemente, assim como um cão dissecado não é mais um cão. Para que o evangelho seja o Evangelho, hão de estar presentes ao mesmo tempo todos os quatro aspectos assinalados. São inseparáveis. A metáfora da pirâmide também funciona de outro modo. Você pode destacar o aspecto do Evangelho (qualquer deles) mais diretamente voltado para as necessidades da pessoa a quem você dá seu testemunho. Se essa pessoa sofre de pobreza do ser, você pode oferecer-lhe vida com o Cristo vivo. Se a pessoa tem fome da verdade, o melhor a oferecer-lhe pode ser a palavra. Se ela padece é de fome mesmo, de injustiça, deveríamos começar com o tipo de ação social que mais rápida e eficientemente lhe satisfaça a necessidade. Se a pessoa tem medo de espíritos, ou se sente tão impotente, que desista de tudo, então o ponto de partida mais adequado será, provavelmente, o poder de Deus sobre tais espíritos. Assim o Evangelho sempre começa onde se encontram as pessoas. O único pecado nesse caso é ficar só nisso. Embora o Evangelho comece onde estão as pessoas, ele sempre tem algo mais a dizer. Todo mundo, não importa por onde comece sua jornada evangélica, está sujeito a dar de frente com o Evangelho na sua inteireza. Todos nós precisamos conhecer o Jesus que é palavra, ação (obra) e sinal. O Cristo que encarna o Reino e caminha de sandálias entre nós. Dr. Bryant Myers é professor de Desenvolvimento Transformacional no Fuller Theological Seminary, Califórnia, EUA. Anteriormente, atuou na Visão Mundial Internacional como Vice-Presidente de Estratégia para Programas Internacionais. Tradução: José Gabriel Said 

NOTÍCIAS DE ISRAEL




Uma moeda de ouro romana de 1.900 anos foi descoberta em Jerusalém: Juntamente co outros artefatos raros, datados dos anos 56-57 AD – cerca de 13 anos antes da destruição de Jerusalém e do Templo pelos romanos, a notícia foi publicada em primeira mão pela Fox News.
A moeda raríssima foi descoberta em escavações no monte Sião, encontrada em escombros perto das moradias que podem ser as casas das pessoas mais ricas na antiguidade em Jerusalém, por exemplo, pessoas da classe sacerdotal.
Os arqueólogos acreditam que estão lidando com a descoberta de uma valiosa moeda aparentemente perdida em batalha, quando os romanos destruíram Jerusalém no ano 70 AD.
“Esta propriedade privada valiosa não pode se encontrar ou jogada como lixo, provavelmente caiu acidentalmente”, disse o professor da Universidade de Carolina do Norte, o arqueólogo Shimon Gibson. “O plausível é que a meda acabou fora dos edifícios quando houve o caos durante a destruição que os romanos fizeram em Jerusalém.” Essas moedas, acrescentou, são normalmente descobertas normalmente apenas em coleções particulares, não havendo evidência clara sobre o lugar de sua origem.
 
Foto: Simon Gibson. A moeda gravada inscrição: “Imperador Nero”

No centro da moeda de ouro está em destaque a figura do imperador romano Nero. Além disso está gravado no texto: “Imperador Nero” (NERO CAESAR AVG IMP).
As escavações em que a moeda é foi descoberta estão sendo dirigidas pelo Prof. Shimon Gibson, Professor James Ligar e Dr. Rafi Lewis, assistidos por estudantes voluntários de todo o país. Segundo o Dr. Lewis, descobriu-se durante as escavações deste ano muitas outras descobertas, inclusive outras moedas. Esta moeda rara está agora no cofre dos arquivos IAA(Autoridade de Arqueologia de ISRAEL), onde foi depositada pelos pesquisadores. De acordo com Dr. Rafi Lewis, eles estão atualmente em preparação para publicação do suas pesquisas científicas.

LIÇÃO 12 - A EVANGLIZAÇÃO REAL na ERA DIGITAL




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Ciberpecado: o inferno da rede

Não precisa muita reflexão para se constatar que a internet tornou-se um espaço de práticas criminosas e pecaminosas. Desde pecados veniais até pecados mortais que “clamam ao céu”, o fenômeno do ciberpecado está crescendo e cada vez com mais modalidades diferentes. Mesmo tendo muitas vezes uma roupagem individual, estas novas formas de pecado são, na sua maioria, de caráter coletivo. No pontificado de Bento XVI, houve muita polêmica ao correr a notícia de que a Igreja Católica havia inventado mais sete pecados coletivos para ‘cobrar’ de seus fiéis.145 Na verdade, são sete novas releituras dos pecados capitais que estão presentes na sociedade globalizada em que vivemos.  As situações e contextos mudam de épocas em épocas, porém a fraqueza humana não. Por isso, quando se fala em novas formas de pecado, não se quer dizer que surgiram novos. São eles: o uso de experimentos moralmente dúbios, o agravamento das injustiças sociais, as violências bioéticas, a riqueza excessiva, a geração da pobreza, a poluição do meio ambiente e o uso de drogas, pecados, mas novas expressões destes pecados e concupiscências que provam ao ser humano desde o pecado original. Nesta parte serão descritos e analisados alguns desses fenômenos do mal na rede, bem como as raízes que o produziram e os efeitos na vida humana em sociedade.

2.1.1 Conceito de pecado

O pecado é um conceito de transgressão de caráter moral e religioso presente em quase todas as tradições religiosas do mundo, de forma especial, no judaísmo e no cristianismo.146 Ele consiste num ato humano consciente e desordenado, o qual recebe uma qualificação moral negativa. Santo Agostinho também o definia como “coisa feita, dita ou desejada contra a lei eterna”147 que gera um “afastamento de Deus e aproximação das criaturas”148. O Antigo Testamento busca mostrar as diversas maneiras que o ser humano pode se desviar do caminho de Deus. Para a tradição judaica, o pecado consiste no não cumprimento dos mandamentos de Deus e não honrá-lo em suas ações, podendo ser realizado de forma consciente ou inconsciente. Em todos os casos, o pecado sempre precisa de reparação.149 O Novo Testamento utiliza o termo harmatia para designar seja um ato pecaminoso, seja a condição humana, ou ainda, um poder personificado. A principal mensagem neotestamentária relacionada ao pecado é à salvação realizada em Cristo e oferecida a todos, não somente à humanidade, mas à criação como um todo. Este ponto mostra algo importante: as faltas ou acertos, maldades ou bondades, nunca são apenas individuais, elas são sempre sociais. Como Paulo nos demonstra: “[...] assim como pela falta de um só homem resultou a condenação de todos os homens, do mesmo modo, da obra de justiça de um só, resultou para todos os homens a justificação que traz a vida” (Rm 5, 18).  Na teologia paulina, o pecado humano é perdoado pelo sacrifício de Cristo, dando ao ser humano uma vida nova. Os Evangelhos, especialmente em Lucas, enfatizam o batismo, isto é, o ingresso na comunidade dos que creem em Jesus que possibilita aos fiéis receber a herança filial e ser purificados dos pecados. O amor que liga Jesus ao pecador é o sinal e o que torna possível o perdão.150 Na Igreja primitiva percebem-se traços da teologia do Antigo Testamento e da paulina no sentido da dimensão social do pecado: não é somente o indivíduo que peca ou
                                                 146 ROSSI, T. Pecado. In: Lexicon, p. 579. 147 AGOSTINHO (Contra Faust., 1, XXII, c. 27) apud ROSSI, T. Pecado. In: Lexicon, p. 580. 148 AGOSTINHO (De lib. Arb.1, I, c. 6) apud Ibidem, p. 580. 149 WILLIAMS, R. Pecado. In: Dicionário Crítico de Teologia, p. 1366. 150 Ibidem, p. 1367.
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sofre as consequências do pecado, mas toda a comunidade é manchada pela falta de um de seus membros.151 Os teólogos modernos, influenciados pelo existencialismo, retomam a visão paulina segundo a qual, antes da escolha pessoal de cometer o mal, existe uma atmosfera que nos aprisiona e que perverte nossas escolhas. Na teologia política e nas teologias da libertação usase o conceito de pecado estrutural para abordar tanto os atos individuais negativos quanto o contexto humano em que o pecado ocorre como consequência de pecados sociais como a injustiça, o desemprego, a corrupção. Nisso se percebe que o pecado humano é sentido por todas as pessoas em todos os lugares, prejudicando nosso ser integralmente, nas dimensões emocional, física, moral, social e espiritual.152 Na cultura secular, o sentido comum da palavra “pecado” mudou, bem como as variações de seu emprego. O que não muda é sua interpelação na vida humana.153 José-Román Flecha tem a impressão de que o ser humano atual procura ceder suas decisões últimas à “serpente”, a um mundo baseado na tecnocracia, isto é, ditado pela tecnologia, que permite ao homem abandonar sua responsabilidade pessoal sobre a sociedade às determinações mecânicas de um mundo irracional.154 Então, os pecados mais corriqueiros na era digital são a alienação, a acomodação, a preguiça, a falta de esperança. O pecado conturba as relações com o próximo, com a comunidade de homens e mulheres, seja ela física ou virtual, e com Deus.  Existem várias distinções e classificações de pecado conforme a gravidade, a origem, a forma, entre outros aspectos, que foram elaboradas no decorrer dos séculos. Aqui se abordará apenas o pecado pessoal ou individual e o pecado estrutural, que alguns autores associam ao pecado social. O pecado pessoal consistiria numa disposição contínua da liberdade, exercida como rejeição da comunhão entre o ser humano e Cristo e como encerramento do indivíduo em si mesmo tendo por consequência a perda do sentido.155

Quando o homem olha para dentro do próprio coração, descobre-se inclinado também para o mal [...]. Muitas vezes, recusando reconhecer Deus como seu princípio, perturbou também a devida orientação para o fim último e, ao mesmo tempo, toda a sua ordenação quer para si mesmo, quer para os demais homens e para toda a criação.156

                                                 151 WILLIAMS, R. Pecado. In: Dicionário Crítico de Teologia, p. 1368. 152 Ibidem, p. 1370. 153 FLECHA, J-R. Pecado Estrutural. In: VIDAL, M. (Org). Ética Teológica, p. 333. 154 Ibidem, p. 336. 155 Ibidem, p. 354. 156 IGREJA CATÓLICA. Gaudium et Spes, n. 13.
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Através do pecado, o ser humano encontra-se dividido em si mesmo. Dessa forma, toda a vida humana, seja individual ou coletiva, mostra-se como um duelo dramático entre o bem e o mal, entre a luz e as trevas. Pois o pecado diminui a pessoa humana, impedindo-a de alcançar a sua realização integral.157 A incorporação do contexto como fator fundamental para a compreensão do pecado original acentua o efeito social de cada escolha humana para o desenvolvimento da história e para a cristificação do universo.158 Pecado estrutural, em sentido analógico, qualifica uma situação contrária à vontade de Deus. Este conceito tem relevância antropológica por explicitar tanto a essência comunitária do ser humano quanto sua identidade pessoal.159

[...] ao falar de “pecado estrutural”, queremos dizer que a maldade pessoal que o homem comete acaba também se condensando nesses fios que sustentam o fato comunitário; e não se condensa exclusivamente na história pessoal de cada um. [Todo pecador é pecador pessoal e também social]. Vale, neste sentido, a expressão agostiniana: “Todo homem é Adão”, enquanto diz que todo pecado pessoal se converte em um “pecado original originante” para o próximo.160

Em comparação com a estrutura da rede, é possível intuir que esses mesmos fios que sustentam o aspecto comunitário da rede estão sendo “encorpados” por maldades e pecados pessoais, formando o pecado estrutural da rede. Assim como as gorduras nas veias vão obstruindo o fluxo no coração que mantém o corpo vivo, as ações iníquas na rede vão impedindo a rede de ser e de exercer seu dom, causando rompimentos em vários pontos.  Faus percebe uma proximidade de sentido entre o conceito de pecado estrutural e de “pecado do mundo” que abarca todo o Evangelho de João. Outras expressões correspondentes podem ser encontradas nas Assembleias do Episcopado Latino-Americano de Medellín, em 1968, e de Puebla, em 1979, tais como “estruturas injustas”, “estruturas opressoras”, “situação de pecado” ou estruturas em que o pecado imprimiu sua marca. A Igreja da América Latina afirma que tais formas de pecado impedem as pessoas de crescer no amor e na comunhão.161 A Exortação Apostólica Reconciliatio et Paenitentia de João Paulo II considera pecado social o pecado contra o amor ao próximo, contra a justiça, contra os direitos da pessoa humana, contra a liberdade do outro, contra a dignidade e a honra do próximo, contra o bem comum e contra as suas exigências, além da cumplicidade e da omissão de todos que podem fazer algo para melhorar a sociedade e não fazem, principalmente da parte dos dirigentes políticos,                                                  157 IGREJA CATÓLICA. Gaudium et Spes, n. 13. 158 FLECHA, J-R. Pecado Estrutural. In: VIDAL, M. (Org.). Ética Teológica, p. 347. 159 FAUS, J. I. G. Pecado Estrutural. In: VIDAL, M. (Org.). Ética Teológica, p. 365. 160 Ibidem, p. 366. 161 Ibidem, p. 367.
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econômicos e sociais.162 João Paulo II acreditava que tais pecados sociais são fruto do acúmulo de muitos pecados pessoais.

Trata-se dos pecados pessoalíssimos de quem gera ou favorece a iniquidade ou a desfruta; de quem, podendo fazer alguma coisa para evitar, ou eliminar, ou pelo menos limitar certos males sociais, deixa de o fazer por preguiça, por medo e temerosa conivência, por cumplicidade disfarçada ou por indiferença; de quem procura escusas na pretensa impossibilidade de mudar o mundo; e, ainda, de quem pretende esquivarse ao cansaço e ao sacrifício, aduzindo razões especiosas de ordem superior. As verdadeiras responsabilidades, portanto, são das pessoas.163

Esse pensamento mostra que a crueldade das estruturas se constitui como um legítimo pecado, pois sua edificação está sob a responsabilidade pessoal de cada indivíduo, criando uma verdadeira solidariedade no pecado.164 O Concílio Vaticano II já refletia sobre os efeitos das más ações pessoais para o corpo social: “Na verdade, os desequilíbrios de que sofre o mundo atual estão ligados com aquele desequilíbrio fundamental que se radica no coração do homem”.165 A Gaudium et Spes explicita bem essa via de mão dupla: a vida do indivíduo afeta toda a sociedade e a estrutura social causa efeitos sobre as escolhas pessoais.

[...] os homens são muitas vezes afastados do bem ou impelidos ao mal pelas condições em que vivem e estão mergulhados desde a infância. É certo que as perturbações tão frequentes da ordem social vêm, em grande parte, das tensões existentes no seio das formas econômicas, políticas e sociais. Mas, mais profundamente, nascem do egoísmo e do orgulho dos homens, os quais também pervertem o ambiente social. Onde a ordem das coisas se encontra viciada pelas consequências do pecado, o homem, nascido com uma inclinação para o mal, encontra novos incitamentos para o pecado, que não pode superar sem grandes esforços e ajudado pela graça.166

A partir disso, pode ser entendido o pecado pessoal como a ponta do iceberg que fica para fora da água, enquanto o pecado estrutural, construído pela sobreposição de inúmeros pecados pessoais, está por baixo sustentando e condicionando as más ações e novos pecados individuais. Dessa forma, pecado pessoal e estrutural formam uma única e mesma realidade. Embora João Paulo II e outros teólogos encarem pecado social e pecado estrutural como conceitos sinônimos, Marciano Vidal faz uma leve distinção entre eles. Para ele, o canal estrutural do pecado é mais profundo que a via social, pois a estrutura está na própria raiz da vida humana, constituindo-se raiz das outras formas de pecado, enquanto que o canal social se
                                                 162 JOÃO PAULO II. Reconciliatio et Paenitentia, n. 16. 163 Ibidem. 164 VIDAL, M. Pecado Estrutural. In: VIDAL, M. (Org). Ética Teológica, p. 377. 165 IGREJA CATÓLICA. Gaudium et Spes, n. 10. 166 Ibidem, n. 25c.
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consolida nas mediações sociais.167 Assim, a teologia atual procura explicar o dogma do pecado original dentro de uma orientação de solidariedade e, ao mesmo tempo, dá uma ênfase toda especial à categoria bíblica do pecado do mundo.168 Neste estudo sobre o pecado na rede, se quer mostrar que existe tanto um pecado estrutural ou “pecado original” na internet, que seria o padrão da rede escolhido e desenvolvido com características desumanizantes, quanto pecados sociais, que consistiriam nessas dinâmicas de divulgação, interação, promoção e compartilhamento de ações ou pensamentos pecaminosos. Juntos, formam um tecido de pecado, uma ‘anti-rede’, a degeneração de seus vínculos e a desvirtuação do sentido último da rede que é a união fraterna de todo o gênero humano. Faus conta que houve dificuldade na aceitação do conceito de pecado estrutural pelos teólogos do Primeiro Mundo, sob o argumento de que só pode ser chamado de pecado aquilo que procede da plena liberdade responsável do homem. No entanto, eles não se davam conta de que essa argumentação não admitia usar a noção de “pecado original” que eles acolhiam como válida.169 Analogamente, negar o pecado estrutural é negar o pecado original. Sendo assim, a reflexão teológica elaborou uma interpretação progressiva dos dados da Revelação sobre a essência do pecado, a relação entre pecado e pessoa e suas diferentes formas ao longo da história humana.170 Neste próximo tópico pretende-se diagnosticar o pecado e suas consequências na era da cultura digital. Esse estudo harmatiológico deve ser feito para identificar os principais tipos de pecado da pós-modernidade e suas consequências no mundo, tendo sempre em vista o plano da salvação. Dessa maneira, se reconhece o ‘ciberpecado’ para conhecer e fazer transbordar a ‘cibergraça’.

2.1.2 O ciberpecado

A noção de pecado no mundo cibernético vai se desvanecendo devido a diversos fatores. Entre eles destaca-se a massificação, o relativismo, o exibicionismo, o egocentrismo, o isolamento e o anonimato. Essas e outras características da cultura digital ajudam a despertar nosso “troll” interior. Troll é um termo muito usado na linguagem dos paladinos digitais para descrever um tipo de pessoa de atitude degradante, violenta, criminosa, maldosa e no sentido religioso, pecaminosa na rede. Os trolls, através do anonimato, provocam, atacam e enfurecem
                                                 167 VIDAL, M. Pecado Estrutural. In: VIDAL, M. (Org). Ética Teológica, p. 376. 168 Ibidem, p. 380. 169 FAUS, J. I. G. Pecado Estrutural. In: VIDAL, M. (Org). Ética Teológica, p. 367. 170 ROSSI, T. Pecado. In: Lexicon, p. 580.
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outras pessoas que muitas vezes nem conhecem por um prazer doentio de fazer os outros sofrerem. De acordo com José Ramon Flecha, o pecado altera esse nó de relações que é a própria vida do ser humano.171 O pecado pessoal, entendido como “fechamento do homem em si mesmo com a consequente perda do sentido”172, pode ser interpretado como os casos de isolamento causado pelo uso desordenado das tecnologias digitais. Dessa forma, o pecado pessoal, mesmo o isolamento, não é cometido apenas contra si mesmo ou contra seu corpo. A má decisão pessoal possui efeitos sociais contrários à liberdade humana, ao fluxo da história e ao processo de cristificação do universo. Jaron Lanier critica a forma como a internet foi se desenvolvendo nessas últimas décadas, pois percebe as consequências negativas da escolha de certos padrões para a compreensão do ser humano como pessoa. Por trás destes modelos existem ideologias que enaltecem o fruto do trabalho criativo humano, a tecnologia digital, não reconhecendo o ser humano como a fonte criativa dessas invenções, por exemplo, dos autômatos. O pai da realidade virtual conta que os primeiros revolucionários e construtores digitais, incluindo ele mesmo, eram movidos por fortes ideais. “No centro de tudo havia a doce crença na natureza humana. Acreditávamos que, se déssemos autonomia às pessoas, o resultado seria mais positivo do que negativo”.173 Lanier aponta que a crença original sobre a web foi substituída por um imaginário de que a rede está ganhando vida própria e se mutando em uma criatura super-humana, como um grande cérebro. Ele critica também os conceitos de ‘inteligência coletiva’, ‘noosfera’, ‘design inteligente’ e ‘singularidade’. “Vós sereis como deuses”: nisso é possível perceber que os primeiros “pais da cibernética” caíram na tentação da serpente, acreditando que poderiam criar algo superior ao ser humano. O cientista diz que a produção digital chegou a tal ponto de descaso da pessoa como fonte e fim da tecnologia pelo fato de que uma subcultura de tecnólogos, os “totalitaristas cibernéticos” ou “maoístas digitais”, tornou-se mais influente do que as demais.174 Lanier identifica o grave erro dessa cultura digital: “segmentar uma rede de pessoas em pedaços tão pequenos que você acaba com uma massa disforme. Então você começa a se preocupar mais com a abstração da rede do que com as pessoas reais que participam dela”.175 Assim, Lanier
                                                 171 FLECHA, J. R. Culpabilidade e Pecado. In: VIDAL, M. (Org). Ética teológica, p. 344. 172 Ibidem, p. 354. 173 LANIER, J. Gadget, p. 31. 174 Ibidem, p. 33. 175 Ibidem, p. 34.
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mostra que a rede por si só não tem sentido, somente as pessoas tem alguma importância. Conforme Spadaro: “A rede não existe. Nós que damos vida a ela” (informação verbal).176 Lanier acredita que esse movimento materialista fundamentado na ciência está ficando semelhante a uma religião. Em nossa leitura, conceitua-se esse endeusamento da máquina como “idolatria 2.0”. Ao colocar um objeto acima do ser humano decorre um efeito negativo de massificação. É um caso semelhante ao do Bezerro de Ouro narrado no Antigo Testamento. Segundo Flecha, o pecado deforma a lógica das relações do ser humano com os objetos, os seres e o mundo ao seu redor. Antes, eram as joias que estavam a serviço do ser humano, entretanto, no momento que as pessoas pecam, elas passam a servir o Bezerro fundido com seus próprios bens. Assim, “todo o pecado é sempre uma idolatria, uma substituição: as coisas de Deus no lugar do Deus das coisas”.177 O cientista da computação alerta que quando se ressalta a multidão se perde a ênfase dada ao ser humano individual no desenho da sociedade, fazendo o sentido da pessoalidade ser reduzido a ilusões de bit. Isto significa que “quando você pede que as pessoas não sejam pessoas, elas voltam a se comportar mal, como uma horda. Isso leva não apenas a trolls com mais poder, mas a um mundo on-line em geral inamistoso e não construtivo”.178 O problema dessas ideias como a noosfera ou a inteligência coletiva está na massificação, ou seja, para construírem algo coletivo é necessário que as pessoas percam sua identidade e seus rostos num mar de massa disforme.  Mesmo reconhecendo o valor de iniciativas como a Wikipedia, tais mecanismos de criação cognitiva anônimos não geram frutos de verdadeira comunhão. Aqui está a linha tênue que separa comunismo e comunidade, coletividade e comunhão. Para Deus ser Trindade ele não precisa e nem pode deixar de ser pessoa. O Pai não deixa de ser Pai, nem o Filho deixa de ser Filho, tampouco o Espírito deixa de ser Espírito, mas só são Pai e Filho e Espírito Santo na relação que cultivam entre si. Eles não perdem a sua identidade na comunhão, ao contrário, é nessa relação amorosa que formam e manifestam as suas personalidades. Por isso que ao invés de chamar esse movimento global de “inteligência coletiva”, Spadaro sugere a adoção da expressão “inteligência conectiva” de Derrick De Kerckhove, valorizando a abertura para a conexão em detrimento da coletividade.179 Pois, as pessoas que estão se unindo não se dissolvem numa massa disforme, mas preservam sua identidade e
                                                 176 Conferências e Seminários ministrados por Antonio Spadaro no 4º Encontro Nacional da PASCOM, de 24 a 27 de outubro de 2014, em Aparecida do Norte, SP. 177 FLECHA, J. R. Culpabilidade e Pecado. In: VIDAL, M. (Org). Ética teológica, p. 345. 178 LANIER, J. Gadget, p. 37. 179 SPADARO, A. Ciberteologia, p. 169.
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personalidade próprias e com estas contribuem para a formação da noosfera. Entretanto, a padronização de certos modelos como o da web 2.0 tem suas consequências positivas e negativas. Na sequência, serão pontuadas más implicações do pecado estrutural cibernético.   

2.1.3 Consequências do pecado na rede

Neste mar de infinitas possibilidades, o ser humano ferido pelo pecado e fragilizado pelos sofrimentos da vida pode com muita facilidade naufragar, se desviar do caminho, aportar em ilhas de conteúdo que o levem a vícios, a apegos, à perdição. Novas doenças surgiram do mau uso da internet180. A comunidade médica já oficializou oito novos transtornos mentais causados pelo abuso das tecnologias digitais. O primeiro chama-se Nomophobia, abreviatura de “no-mobilephobia”, significa o aumento da ansiedade por não ter acesso a um dispositivo móvel. Quanto maior é a intensidade de uso do celular, mais chance a pessoa tem de ter uma crise de ansiedade quando acaba a bateria do aparelho. A Nomophobia é levada tão a sério nos Estados Unidos que recebeu um programa de tratamento no Centro de Recuperação Morningside em Newport Beach, Califórnia. O nome do segundo soa como brincadeira, Síndrome do Toque Fantasma. Como o nome já sugere, é o mecanismo cerebral de ouvir o telefone tocar ou senti-lo vibrar sem que de fato isso tenha ocorrido. Parece inofensível, entretanto, futuramente a doença pode evoluir a novas formas com o desenvolvimento da computação vestível, como o caso do Google Glass, óculos com tecnologia digital já em testes. A Ciberdoença pode causar desorientação, náusea, tontura ou vertigem no período em que alguns usuários fazem contato com certos ambientes digitais. Acontece devido a algumas interfaces digitais darem ao nosso cérebro uma falsa ideia de estarmos em movimento. Uma das versões mais atuais do iOS da Apple obteve muitas reclamações por causa destes efeitos colaterais durante o uso.  O quarto distúrbio, Depressão de Facebook, é o transtorno depressivo ocasionado pelas interações sociais ou pela falta destas, nas redes sociais, em especial, no Facebook. Um estudo da Universidade de Michigan aponta que os casos de depressão entre os jovens estão diretamente ligados ao tempo que estes permanecem conectados no Facebook. Uma das razões levantadas para isso é que quase todos os nativos digitais costumam postar em seus perfis somente o lado bom de suas vidas, fotos bonitas em belos lugares, dando a impressão que todos
                                                 180 DASHEVSKY, E. Eight new mental illnesses brought to you by the Internet, 2013.
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são bem-sucedidos e seu cotidiano perfeito e empolgante. Então, o jovem olha para sua própria realidade e se sente inferior ou infeliz. O Transtorno de Dependência da Internet é a vontade constante de acessar a rede, gerando seu uso excessivo que acaba por interferir negativamente no dia-a-dia do internauta. Não é um distúrbio em si mesmo, mas um sintoma para problemas mais graves como TOC (Transtorno Obsessivo Compulsivo), DDA (Distúrbio de Déficit de Atenção) e ansiedade social. As formas de vício cibernético também estão associadas à baixa autoestima, à baixa autossuficiência e a habilidades ruins.  Um dos problemas que mais ocorrem atualmente é o vício de jogos on-line. De acordo com uma pesquisa feita em 2010 na Coréia do Sul, 18% dos coreanos com idades entre 09 e 39 anos são dependentes de jogos on-line. Para amenizar a situação, o País chegou a promulgar a “Lei Cinderela”, que impede o acesso a jogos on-line entre 24 e 06 horas para usuários com menos de 16 anos em todo o território. Apesar de não haver estatísticas precisas sobre o índice de dependência, está crescendo o número de iniciativas de ajuda para pessoas com este transtorno nos Estados Unidos, como o Centro para Viciados em Jogos Online e o grupo virtual dos Jogadores On-line Anônimos que, inclusive, formulou seu próprio programa de recuperação com 12 passos.  O doutor e pesquisador da Universidade da Califórnia, L. D. Rosen, explica que o cérebro humano aprende que certas atividades liberam serotonina e dopamina que produzem um efeito de bem estar. Assim, a necessidade de receber essas substâncias neurotransmissoras faz com que a pessoa viciada repita várias vezes a atividade a fim de sentir-se bem. Outro distúrbio é a Cibercondria ou Hipocondria Digital, cujo efeito consiste em a pessoa acreditar que tem doenças sobre as quais leu na web. E por fim, o Efeito Google, muito comum hoje, seria a tendência cerebral de reter menos informações porque o cérebro humano sabe que as respostas estão ao alcance da mão no ciberespaço. Atualmente, qualquer pessoa acessa em segundos boa parte da informação que a humanidade acumulou no decorrer de toda a sua história. Essa grande vantagem que a internet nos proporcionou resultou na alteração do funcionamento do cérebro humano. De acordo com Dr. Rosen, o Efeito Google não é algo exclusivamente negativo. Isto poderia ser compreendido como o marco de uma mudança social, com traços que poderiam ser considerados tanto uma evolução da humanidade quanto um retrocesso da capacidade cerebral humana. O que acontece na internet é uma prova autêntica de que o pecado sempre é um ato coletivo, no sentido de que fere a natureza humana inteiramente e afeta cada ser humano direta ou indiretamente. Toma-se como exemplo a rede social Facebook. O perfil de cada pessoa está
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vinculado a centenas de “amigos” dos mais variados interesses, temperamentos e estilos de vida, pessoas que se conheceu em diferentes círculos sociais e épocas da vida. Por mais que os programadores do Facebook tenham um mecanismo de seleção das postagens dos contatos com os quais mais se têm interação, podem surgir no feed de notícias postagens com conteúdo agressivo, ofensivo e até preconceituosos a determinados grupos sociais, materiais pornográficos ou mesmo piadas que denigrem a dignidade do homem e da mulher. O indivíduo que publicou tais conteúdos, compartilhou na verdade o seu próprio pecado com centenas e, dependendo da sua popularidade, milhares de pessoas. O problema aqui é que o pecado de um só ser humano pode ter levado vários outros a pecar, reforçando más tendências, vícios e preconceitos. Outro fenômeno contemporâneo é o cyberbulling, forma de violência física e (ou) psicológica exercida por alguém ou por um grupo que se acha no direito de constranger, agredir ou assediar outra pessoa ou grupo fragilizado e vulnerável.181 Inicia no espaço digital podendo se estender a outros âmbitos, como a escola ou a faculdade. A agressão envolve o uso de tecnologias da informação para veicular conteúdos textuais e audiovisuais que causem constrangimento público, danos morais à imagem e à identidade da vítima.  Em comparação ao bulling, o efeito do cyberbulling é mais destrutivo, pois expande exponencialmente o alcance e a rapidez da divulgação da mensagem, além do agressor estar protegido pelo anonimato, o que torna o impacto muito maior e o delito mais frequente. Atitudes como o cyberbulling e o trolling demonstram que a humanidade decaiu na tolerância e solidariedade com o próximo e no cultivo das virtudes e valores humanos. Verdadeiras tragédias estão virando notícia cotidiana, como o caso da jovem gaúcha de 16 anos que cometeu suicídio depois de ver suas fotos íntimas vazadas na web, veiculadas provavelmente por seu ex-namorado182. Na mesma reportagem, há outra ocorrência de uma adolescente da mesma idade que também se matou após saber que um vídeo mostrando um ato sexual do qual participara fora divulgado pelo aplicativo What’s App.  Em 2006, se teve pela primeira vez no Brasil a notícia de um suicídio não somente assistido ao vivo pela rede, como também estimulado e orientado por membros de um fórum de discussão183. O garoto também de 16 anos anunciou dia, hora e local de sua morte em seu blog. Ao pedir sugestões do melhor momento para executar o plano e da maneira mais
                                                 181 REVISTA PUCRS. Cyberbulling, p. 30-31. 182 ILHA, F. Jovem comete suicídio depois de ter fotos íntimas vazadas na internet. Site Globo.com, 20 de nov. de 2013. 183 ETCHICHURY, C. Adolescente gaúcho tem morte assistida na internet. Site Safernet, 10 de ago. de 2006.
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confortável possível, ele recebe respostas frias de internautas. Uma jovem canadense que conheceu o adolescente em um fórum de música, pois ele era compositor, ao ver a postagem no blog, avisou a polícia do seu país sobre a possível tentativa. Troca de informações entre as polícias canadense e brasileira foram feitas. Tarde demais, quando a Brigada Militar de Porto Alegre chegou à residência, encontrou o rapaz já sem vida.  As tragédias pessoais são pequenos sinais de fumaça de incêndios com proporção ainda maiores. Não só as patologias migraram para o ambiente digital, as guerras e conflitos políticoeconômicos também. É o que chamamos de ciberwar ou guerra cibernética. Vulnerabilidade, violação de privacidade, a rede está se transformando numa espécie de tecido de pecado. Como Paulo fala da carne de pecado (Gl 5,16-24), está ocorrendo uma ‘corporificação’ do pecado: por Adão, o pecado entrou no mundo, por Jesus Cristo, a salvação. Sob a hipótese de uma virtualização tanto da graça quanto do pecado, no sentido de acompanhar a vida humana onde quer que ela esteja e se manifeste, poder-se-ia dizer que assim como o Verbo se fez bit, o pecado também está presente na rede.

2.1.4 Ciberguerra

Não é nenhuma novidade que a computação foi concebida com fins bélicos. A internet foi inventada no período da Guerra Fria como meio de proteção a um ataque nuclear. O primeiro cracker ou decodificador, ou seja, a pessoa que utiliza a informática para derrubar sistemas de segurança de um inimigo, foi Alan Turing. O Prêmio Nobel da ciência da computação leva seu nome, pois ele foi capaz de decifrar o código secreto nazista chamado Enigma.184 Assim, quebrou-se a defesa nazista, o que levou ao fim da guerra, por isso é considerado um dos grandes heróis da Segunda Guerra Mundial. Isso nos mostra que a guerra cibernética não é um fenômeno novo, desde a origem da informática houve esse tipo de utilização. Poder-se-ia dizer que existe na cibernética uma raiz de pecado por ter sido criada em função da guerra. A primeira denominação para o uso dos meios de comunicação na condução de conflitos, infowar, provém do início dos anos 70. Na década de 80, o conceito infowar ganha a conotação de estratégias militares baseadas na computação. A guerra da informação tem como objetivos fundamentais atacar os sistemas informacionais do adversário e proteger seus próprios sistemas de comando.185 A partir do conceito infowar surgiu o termo cyberwar, ainda mais ligado à dimensão militar, pois é visto como o novo paradigma do confronto militar. A guerra
                                                 184 LANIER, J. Gadget, p. 50. 185 FRÜHBAUER, J. J. Cyberwars, p. 53.
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cibernética vai além do emprego estratégico das tecnologias da informação e comunicação no campo de batalha. Nela, não apenas o sistema de comando e controle está interconectado na rede, mas todos os combatentes e níveis de ação.186 Existem três definições de cyberwar. A primeira vê a cyberwar como um complemento às atividades militares tradicionais, cujo objetivo é obter o domínio informacional sobre o conflito. A segunda restringe-se à estrutura informacional: as TIC’s como meio, objetivo e armas de ataque. Visa sabotar às TIC’s dos inimigos e deteriorar seus dados. Já a terceira cyberwar é irrestrita, atingindo tanto o campo civil quanto o militar. Sendo assim, cyberwar são ações e ataques que se realizam antes e durante o conflito.187 Por sua vez, netwar relaciona-se com o autoconhecimento e a auto-imagem dos oponentes. Tem como objetivo influenciar, desestruturar e destruir a moral dos adversários através de propagandas, infiltração em suas redes e bancos de dados, pelo apoio à oposição política e aos movimentos sociais atuantes na internet. A netwar vai de encontro com os movimentos sociais da rede vistos no primeiro capítulo, sendo articulada especialmente por civis de todo o mundo que se sensibilizem com algum ato de injustiça ou crueldade.  No entanto, essas três definições distintas costumam se condensar apenas no termo cyberwar. Assim, essa expressão é usada comumente para designar qualquer tipo de ataque, retaliação ou invasão do sistema de um computador ou de uma rede. No campo legal, uma ciberguerra autêntica precisaria ser enquadrada no âmbito do Direito dos Conflitos Armados ou Direito Internacional Humanitário. A cyberwar pode ocorrer concomitante a uma guerra física, ou de forma totalmente autônoma. O diferencial destes ciberconflitos é o protagonismo de atores não estatais.188 Apesar de ter ocorrido ataques anteriores, acredita-se que o estopim da ciberguerra tenha sido a disseminação do vírus Stuxnet com o objetivo de desacelerar o mecanismo de enriquecimento de urânio do Irã em 2010, adiando a produção da bomba atômica iraniana. Outro exemplo próximo da realidade brasileira, foi a denúncia de espionagem do Brasil por parte dos americanos delatada por Edward Snowden, em janeiro de 2013.  Toda essa hostilidade no ciberespaço leva ao questionamento: É possível cyberpeace? É possível vivermos dentro e fora da rede um espírito de fraternidade e solidariedade? Para que se restitua a paz no ciberespaço é necessário haver reconciliação, por isso, uma pergunta fundamental antecede as outras: Existe perdão na internet? Essa é a reflexão a seguir.
                                                 186 FRÜHBAUER, J. J. Cyberwars, p. 54-55. 187 Ibidem, p. 55-56. 188 WIKIPEDIA. Ciberguerra.
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2.1.5 Existe reconciliação na web?

Uma questão importante a ser meditada é como a cultura digital afeta o perdão, a reconciliação das pessoas com Deus, entre si e consigo mesmas. Aparecem seguidamente notícias de diversos casos de separação em namoros que acabam em tragédia, pois um dos parceiros resolve se vingar postando imagens constrangedoras do outro nas redes sociais.  Antonio Spadaro, em seu e-book Cybergrace, aborda rapidamente a relação entre memória e perdão, como esses aplicativos digitais afetam a vida do indivíduo e sua memória para si mesmo e para os outros.189 A linha do tempo das redes sociais, com suas fotos marcadas, suas postagens expressando sentimentos, informações pessoais, pensamentos e geolocalizações, reproduzem e contextualizam momentos passados e presentes da sua vida. O Facebook, o Twitter, o Pins, a Amazon, a Estante Virtual e tantas outras empresas conhecem dos internautas os gostos e interesses sobre assuntos, músicas e livros melhor até que seus amigos. Os vídeos que os internautas disponibilizam e que os outros divulgam a seu respeito no Youtube e no Vimeo, vão construindo um filme de sua história de vida.  Essa retrospectiva de palavras, imagens e sons feita por aplicativos como Momento, Museum of me e Rapportive serve como um depósito, um arquivo, um museu digital da própria existência. Assim, a vida se torna uma exposição artística, um show a ser apreciado ou criticado. No ambiente digital a memória pessoal está “salva”, a existência está “salva” do esquecimento. A palavra grega areté, traduzida pelos termos ‘virtude’ e ‘salvação’, significa “que os feitos sejam eternamente lembrados”. Diante desse sentido nos questionamos: o que a “salvação” digital implica na salvação cristã? Uma das implicações é a impossibilidade do esquecimento, assim, nossas ações e escolhas se tornam praticamente incanceláveis. Isso dificulta significativamente a uma pessoa que cometeu erros dar a volta por cima e recomeçar. Na dimensão do perdão, o esquecimento é fundamental para trilhar o caminho de uma vida nova em Cristo. A dinâmica da web não dá crédito ao arrependimento humano, pois eterniza memórias que não deveriam ser recordadas. Spadaro cita o exemplo hipotético de um ator pornográfico, se ele decide mudar radicalmente sua vida, no ambiente digital ele continuará sendo recordado por tudo aquilo que já fez. Então, na internet não há possibilidade do perdão. No entanto, este ponto, embora negativo, auxilia na compreensão do que de fato é o perdão.

                                                 189 SPADARO, A. Cybergrace, pos. 182 de 361, 50%.
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Sobretudo, hoje mais do que nunca, se compreende melhor como o perdão não coincide na verdade, (não pode mais agora de fato coincidir), com o esquecimento, e que o perdão autêntico é uma intervenção que transcende a minha história e que escapa ao sistema das minhas possibilidades, sendo fundado sobre a alteridade de Deus. No mundo em que “o meu pecado está sempre a minha frente” (Sl 50,5) e tudo é digitalmente salvo, como resultará pensar a salvação religiosa?190

Portanto, perdoar não é esquecer. Na era digital, onde é difícil esquecer, é necessário encontrar modos de superar os rastros digitais que sempre acompanharão os internautas. Uma das formas é lutar para que o modelo de internet que se tem hoje mude no futuro. Como Jaron Lanier expressa, não são os seres humanos que devem se reduzir para se adaptar à tecnologia, mas o mecanismo digital deve acompanhar a dinâmica e as necessidades da pessoa humana.

Concluindo

Mercado negro, tráfico de drogas, de armas, de órgãos, de seres humanos: a internet veio também facilitar a comunicação e articulação mundial do crime organizado e de outros males que o ser humano cego pelo pecado é capaz de causar ao seu semelhante. Diante de tantas atrocidades, o pensamento de que a rede é boa e faz parte da criação e do plano salvífico de Deus parece uma ingenuidade utópica. Como podemos pensar em comunhão nos tempos da rede e a internet como dom de Deus?  Apesar de o homem ser pessoa, isto é, chamado a ser e a viver a comunhão de amor trinitária, o ser humano pode negar a sua essência e semelhança com Deus, rejeitar quem ele de fato é. Eis o drama trinitário: o pecado é a rejeição dessa comunhão. Assim, o ser humano, por livre escolha, torna-se indivíduo egoísta, fechado em si mesmo, vivendo um estado de inferno exterior e interior, causando o mal a si mesmo e àqueles que estão ao seu redor ou conectados com ele. Spadaro pondera que a internet pode explicitar a humanidade ferida e as feridas da humanidade:

Se a rede expressa a vida, ela exprimirá a vida como ela é. Se uma pessoa não é integrada, tem problemas, doenças, isso será manifestado na rede. A rede mostra também todos os limites da humanidade. Ao permitir uma grande facilidade de comunicação e velocidade, ela coloca os vícios ainda mais em evidência e também o bem é destacado. Enquanto a rede espelha a vida, ela também expressa os limites. E ali temos que ter uma grande maturidade espiritual para confrontar-se com a humanidade. Cada um de nós é chamado a ser um bom samaritano em contraponto a tudo o que vemos de ruim e de maldade na rede (informação verbal).191

                                                 190 SPADARO, A. Cybergrace, pos. 202 de 361, 57%. 191 Formação dada por Antonio Spadaro aos consagrados, colaboradores e estudantes da Canção Nova ocorrida, de 28 e 29 de julho de 2014, em Cachoeira Paulista, SP.
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Com isso Spadaro quer dizer que problemas como o cyberbulling e o autismo não são frutos específicos da rede, mas de uma de uma falta de equilíbrio de vida, de uma má formação. Ele ainda admite que a culpa por esses males é das gerações anteriores, principalmente de sua geração. Pois a identidade de uma geração é constituída por aquilo que as anteriores a transmitiram ou o que deixaram de passar. Por isso, o Papa Francisco enfoca o contrato social na Evangelii Gaudium, dando atenção especial aos idosos e aos jovens, as extremidades mais frágeis deste pacto.192 As gerações anteriores à Y julgam ser falsa a amizade virtual, o que conta para eles é a amizade face a face. A consequência disso é a criação de uma geração esquizofrênica. Pois, se um jovem que vive na internet pensa que tudo o que faz é falso, então ele pode fazer o que quiser. Para Spadaro, o caminho para encontrar o equilíbrio é reconhecer que a vida é uma só, física ou digital, ambas são verdadeiras.193 Mesmo assim, percebe-se que está se tecendo na rede uma estrutura pecaminosa que se enquadra no conceito de pecado estrutural: “o pecado do homem tem efetivamente enormes possibilidades de estruturar-se como forma de convivência. [...] o pecado se esconde de muitas máscaras e influi nos homens na hora das decisões morais pessoais”.194 Por serem os seres humanos que fazem a rede acontecer, não se isentam dessa responsabilidade, pois são seus pecados pessoais que estão construindo esta arquitetura do mal. Ao contrário, sua responsabilidade aumenta cada vez mais. Como Jaron Lanier disse, escolheu-se um modelo de internet, mas existem outros. É possível evoluir para um padrão cibernético mais voltado à valorização do humano, que se adapte à vida humana e que não a obrigue a reduzir suas possibilidades de expressão aos moldes delimitados pela tecnologia. Fazendo analogia à Noosfera de Teilhard de Chardin, Faus acredita que o ser humano vive em meio a uma “hamartiosfera” também.195 Pensando dessa forma, se poderia dizer que assim como existe a esfera do pecado, há a esfera do Espírito muito mais evidenciada, pois desde o princípio da criação, “um sopro de Deus agitava a superfície das águas” (Gn 1,2). Portanto, deve-se aprender com o apóstolo Paulo que: “onde abunda o (ciber)pecado, superabunda a (ciber)graça”. Se o homem, mera criatura, consegue transformar um dom como a internet em instrumento disseminador do mal, o que não fará Deus, que consegue tirar de todo o mal um bem ainda maior? É preciso atravessar o “vale escuro” da humanidade pecadora para se enxergar e corrigir os erros cometidos, a fim de se construir um futuro de esperança para a
                                                 192 FRANCISCO. Evangelii Gaudium, n. 64. 193 Formação dada por Antonio Spadaro aos consagrados, colaboradores e estudantes da Canção Nova ocorrida, de 28 e 29 de julho de 2014, em Cachoeira Paulista, SP. 194 FAUS, J. I. G. Pecado Estrutural. In: VIDAL, M. (Org). Ética Teológica, p. 370. 195 Ibidem, p. 369.
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vida humana e reencontrar-se com o Deus uno e trino na era digital. Justamente a cibergraça, a graça que emerge da rede, será o tema do próximo tópico.


2.2 Onde abunda o ciberpecado, superabunda a cibergraça

A rede é um lugar densamente espiritual. O fato de que sejam possíveis tantos males através da rede nos faz compreender essa potência do espírito, pois se é admissível tanto mal, é possível também o bem. A rede, lugar privilegiado do “livre arbítrio” humano, precisa passar da arbitrariedade à responsabilidade. O desejo humano de relação esconde o profundo anseio e chamado humano à comunhão. Isso não depende do esforço humano, mas da graça porque é dom de Deus. A comunhão é amor-doação de um ser a outro ou a outros, formando uma unidade que não os anula, ao contrário, os plenifica e os torna sujeitos responsáveis por essa comunidade.  Dessa forma, passa-se para a segunda parte desse capítulo que aborda a dinâmica da graça no contexto contemporâneo e cibernético. Começa-se com uma reflexão que tem por objetivo pensar a rede à luz da palavra de Deus, buscando parâmetros e metáforas na Bíblia. Depois será recuperado o conceito de graça para fundamentar a cibergraça que se deterá na dinâmica e manifestação do Espírito na vivência digital.

2.2.1 A internet na Bíblia: o poço de Jacó e o ciberespaço

Quando se pensa nas novas realidades e possibilidades que as tecnologias digitais proporcionaram, a primeira impressão é que elas são criações totalmente humanas e que não tem ligação alguma com a tradição bíblica. Entretanto, a fé cristã diz que a Palavra de Deus é sempre nova, que o Pai é o criador de todo o universo e o Filho faz nova todas as coisas. De fato, não há parâmetros diretos para a invenção da internet nas Sagradas Escrituras, nem para esse novo espaço de relações interpessoais desterritorializado que chamamos de ciberespaço. No entanto, o novo precisa ser discernido teologicamente e os textos sagrados são as fontes principais de onde brota a teologia. Utilizando a mesma linguagem analógica do Nazareno, o presente estudo visa perceber o ciberespaço no plano de Deus para a criação, à luz do Evangelho de João, especificamente no capítulo quatro. “Com que podemos comparar o Reino dos Céus?”, assim começa Jesus nas suas parábolas sobre a novidade do Reino que Ele estava tentando explicar aos seus discípulos. Da
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mesma forma pode-se perguntar: “A que podemos comparar o ciberespaço?”. Como o poço de Jacó, um detalhe aparentemente sem importância no relato do diálogo entre Jesus e a samaritana, pode nos revelar aspectos significativos sobre o papel do ciberespaço no advento do Reino de Deus? Por isso, se fará o exame do texto bíblico na perspectiva do ciberespaço como uma nova ambiência de convivência e de comunhão entre as pessoas. João Paulo II na encíclica Redemptoris Missio chamou a internet de “novo areópago dos tempos modernos”, isto é, um lugar público onde se deve anunciar o Evangelho. Compara-se agora o ciberespaço com o poço de Jacó com a intenção de denotá-lo como um ambiente de encontro, de convivência e de união. O poço na época bíblica era um lugar neutro, em que pessoas de classes, povos e religiões distintas podiam se encontrar e um dos únicos espaços públicos onde homens e mulheres podiam dialogar com certa liberdade. O encontro junto ao poço, nas estruturas literárias bíblicas, geralmente faz alusão a um futuro matrimônio (Gn 24,13-14).196 Apesar de seguir os moldes literários dos relatos de casamento, o colóquio de Cristo com a Samaritana tem um significado mais profundo. Há dúvidas entre os exegetas se este foi um evento histórico ou se foi um episódio simbólico para transmitir ensinamentos.197 Entretanto, o importante neste texto é aquilo que São João quis expressar. O encontro de Jesus com a samaritana (Jo 4) simboliza a conversão de Samaria que restaurará o vínculo matrimonial que a unia a Deus. Conforme a Bíblia de Jerusalém, nesse relato, Deus é visto como o esposo de seu povo e Jesus desempenha a função do servo. Este fragmento representa o encontro entre Deus e a humanidade, através de Cristo. À luz de João 4, concebe-se o ciberespaço como uma nova ambiência de encontro. Assim, o diálogo entre Jesus e a samaritana revela a presença de diversas pessoas, inclusive as pessoas divinas. O Nazareno já no princípio do diálogo rompe com protocolos e tabus da sociedade judaica: “Como, sendo judeu, tu me pedes de beber, a mim, que sou samaritana?” (Jo 4, 9). Jesus sendo Deus posiciona-se como o menor, como o servo dos servos, ou pelo menos, em situação de igualdade com a mulher samaritana. A lógica relacional da rede está em harmonia com as atitudes de Jesus. A internet segue o modelo “peer to peer”, em que todas as pessoas que fazem parte da rede são “iguais”, tem as mesmas possibilidades de se interligarem, de se inter-relacionarem, de “darem de beber” àqueles que quiserem, sem levar em consideração as esferas sociais e culturais das quais se originam.198
                                                 196 SILVA, A. A. Cibergraça, p. 496. 197 SILVA, C. M. D. Leia a Bíblia como literatura, p. 45. 198 SILVA, A. A. Cibergraça, p. 497.
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O encontro com a samaritana é um dos únicos momentos do Evangelho em que Jesus se auto-comunica como o Cristo, refere-se ao Pai e ao Espírito Santo, e para a surpresa dos discípulos, escolhe uma mulher considerada impura para ser sua testemunha. Essa mulher também é uma figura da Samaria que foi infiel a Deus, pois os cinco maridos que a mulher teve representam os cinco ídolos de outros povos que os samaritanos idolatravam. Jesus afronta os preconceitos de sua época. Esse confronto é indispensável para apreendermos a presença de Deus nas realidades contemporâneas.  Apesar de tantos documentos e mensagens da Igreja abordando positivamente o fenômeno do ciberespaço, ainda é costume escutar diversas críticas sobre a internet dentro das igrejas no sentido de como ela pode influenciar mal, contaminar os pensamentos e levar os indivíduos a pecar. Entretanto, Jesus bebe da água de uma pessoa tachada como impura e oferece a sua água viva. A internet de fato possui ilimitadas possibilidades para pecar e mesmo cometer crimes. No entanto, “onde abunda o ciberpecado, superabunda a cibergraça”. O bem e o mal estão no coração humano. O ciberespaço é uma ambiência na qual a própria pessoa decide o que acessar e com quem conviver.199 É plausível se pensar que a samaritana pode ter ido inúmeras vezes ao poço encontrarse com outros homens sob o pretexto de buscar água, já que teve cinco maridos e o que tinha no momento não era seu. Ou mesmo, o fato de ela ter ido ao meio dia, com o sol a pino, um horário incomum para se tirar água, demonstra que ela não desejava cruzar com ninguém pelo caminho, que era excluída e estigmatizada pela sociedade. Contudo, o encontro inesperado com Jesus mudou a sua vida para sempre. Da mesma maneira, o ciberespaço é um lugar onde se reproduzem as atitudes da vida física, seja a tendência ao pecado ou ao isolamento, mas nele também é possível ser surpreendido com um encontro pessoal com Deus. 

[...] anseio da mulher, a qual se declara disposta a abandonar para sempre o poço da Lei e da tradição, que sua história representa, mas que não conseguiu acalmar os seus desejos. Sua reação é oposta à de Nicodemos. Rompendo com o seu passado, ela quer nascer de novo. Crê que isso é possível e o espera de Jesus, o qual começou pedindo água e termina prometendo-a; também na cruz, primeiro manifestará sua sede (19, 28) e em seguida dará a água que brota de seu corpo (19, 34). Romperam-se as barreiras; a mulher samaritana lhe pede a ela, o judeu. No começo Jesus expusera sua necessidade física, [...] e agora se oferece para apagar a sede da vida plena, o anseio mais profundo do homem. Jesus não se detém no cultural nem no religioso; vai à raiz, ao homem como criatura de Deus Criador e Pai.200

                                                 199 SILVA, A. A. Cibergraça, p. 497. 200 MATEOS, J. O evangelho de São João, p. 213.
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Segundo os autores Mateos e Barreto, a água é o Espírito que substitui a Lei assim como o manancial de Jesus substitui o poço de Jacó, figura da Lei. “É [...] fato personalizante, por transformar-se em manancial interior que fecunda o seu ser (4,14): rega “a terra” de cada um, desenvolvendo nele suas próprias capacidades”.201 Se o poço de Jacó pode ser entendido como figura da Lei, o ciberespaço poderia ser apreendido como figura do Espírito. A água do poço é uma água parada, a água da rede é um fluxo vivo, constante e dinâmico de informações, de relações, de vida, de uma pessoa a outra. Numa interpretação profética de um vir a ser, é possível pensar na rede cibernética não como pontos interligados, mas como o fluxo de um manancial vivo que jorra de uns para os outros como esperança de vida eterna, de comunhão e de participação da vida trinitária.   “Senhor, nem sequer tens vasilha e o poço é profundo; de onde, pois, tiras essa água viva?” (Jo 4, 11). A água viva está dentro do próprio homem. “[...] quem beber da água que lhe darei jamais terá sede. Pois a água que eu lhe der tornar-se-á nele fonte de água jorrando para a vida eterna” (Jo 4, 14). A água viva pode ser entendida como a vivência dos ensinamentos de Cristo pela ação do Espírito Santo. Dessa forma, faz-se necessário renascer hoje “da água e do Espírito” (Jo 3,5).

Esses dois simbolismos, parecem convergir aqui, como em outros textos de João e da catequese batismal dos primeiros cristãos. Ora, a sabedoria deixa a gente com sede (Sir. 24, 21), mas Jesus não: ‘A água que eu darei se tornará nele uma fonte de água jorrando para a vida eterna’ (cf. 6, 35). Jesus é mais que Jacó, mais que a Sabedoria dos livros bíblicos. A comunhão com Jesus, simbolizada pela água do batismo, é uma fonte de vida que não estanca e que nos comunica o Espírito (cf. Jo 7, 37-39).202

O verdadeiro apostolado é estar em comunhão com Deus e, assim, levar os outros a essa comunhão. Depois que Cristo entrou na vida da samaritana, Ele realmente entrou e transformou seu coração. A mudança era notável e, conforme a Palavra, muitos samaritanos acreditaram por que viram que algo aconteceu no interior daquela mulher, algo resplandecia nela. Verdadeiramente, o Senhor fez “transbordar a sua taça” (Sl 22, 5) e do seu interior emanaram “rios de água viva” (Jo 7, 38). A samaritana por seu brilho convenceu muitos a ir ter com Jesus e já não acreditaram mais pelo testemunho dela, mas porque eles mesmos tiveram uma experiência de Deus.  A samaritana ensina como ser e como viver no ciberespaço. Bento XVI, em todas as suas mensagens para o dia mundial das comunicações sociais nos exortou à autenticidade e ao
                                                 201 MATEOS, J. Vocabulário Teológico do Evangelho de São João, p. 20-21. 202 KONINGS, J. Evangelho segundo João, p. 142.
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testemunho em nossas redes sociais. “[...] as pessoas que nelas participam devem esforçar-se por serem autênticas, porque nestes espaços não se partilham apenas ideias e informações, mas em última instância a pessoa comunica-se a si mesma” 203. Quando alguém pode afirmar “Cristo vive em mim” (Gl 2,20), o seu ser comunica o próprio Deus, então, o “Verbo se faz bit”. Nesse sentido, o seu “próximo”, que faz parte da sua rede, pode através da sua vida conhecer e ter uma experiência de Deus. O Espírito Santo pode fluir pelo ciberespaço. Basta olhar a história da salvação para constatar que Deus além de Criador também é criativo e se manifesta da forma que bem entende. “Para Deus, com efeito, nada é impossível” (Lc 1,37). A kénosis de Deus é tal que o Filho Unigênito de Deus passa a residir na natureza humana inteiramente. Jesus Cristo continua sendo verdadeiro Deus e verdadeiro homem em nosso tempo. Portanto, Ele participa da cultura e da vida de hoje e se encontra onde a humanidade está.204 Assim, admite-se reconfigurar a Palavra de Deus traduzindo-a para a realidade digital, parafraseando Jo 1,14: “E o Verbo se fez ‘bit’ e habitou entre nós e nós vimos a sua glória”.  É preciso que o Verbo se faça bit, ou seja, torne-se presente em toda a realidade humana física e digital, como assinala Bento XVI: “No mundo da internet, que permite que bilhões de imagens apareçam em milhões de monitores, deverá sobressair o rosto de Cristo e ouvir-se a sua voz, porque, se não há espaço para Cristo, não há espaço para o homem” 205.  Ver a glória de Deus é estar na sua presença e participar de sua vida, como Pedro, Tiago e João o fizeram no Monte Tabor. É possível identificar qualidades da rede que potencializam uma vivência de comunhão e fraternidade entre todos os povos.206 Por ser desterritorializado, o ciberespaço é uma ótima representação para compreender hoje o que Jesus anunciou à samaritana: “[...] nem neste monte nem em Jerusalém adorareis o Pai. [...] Mas vem a hora, e é agora, em que os verdadeiros adoradores adorarão o Pai em Espírito e verdade” (Jo 4,21-23).  Assim como o Poço de Jacó era figura da Lei, nas parábolas hipermodernas, o ciberespaço é imagem do novissimus de Deus, daquilo que pode se tornar uma rede de comunhão eucarística.  O Reino de Deus é constituído por pessoas em comunhão, a rede por pessoas em conexão. Essa nova ambiência de comunicação e de relação é fruto do Espírito Criador. Ela
                                                 203 BENTO XVI. Redes sociais: portais de verdade e de fé; novos espaços de evangelização. Disponível em: <http://www.vatican.va/holy_father/benedict_xvi/messages/communications/documents/hf_benxvi_mes_20130124_47th-world-communications-day_po.html>. Acesso em: 24 de nov. de 2013. 204 SILVA, A. A. Cibergraça, p. 498. 205 BENTO XVI. Verbum Domini, n. 113. 206 SILVA, A. A. Cibergraça, p. 498.
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está no querer de Deus e tem o potencial de auxiliar a construção deste Reino de paz, de igualdade, de justiça e de comunhão. Transformar a conexão em verdadeira comunhão não é possível pela própria força, pois a comunhão é dom de Deus. Viver na graça do Senhor, este é o desafio dos cristãos que vivem nos tempos da rede para que o ciberespaço não seja mera imagem figurativa das correntezas do Espírito pelo mundo, mas que de fato concretize sua missão de ser rede de água viva que auxilia o cosmos a chegar à sua plenitude. Por essa razão, é preciso rever o significado da graça ao longo da tradição cristã a fim de chegar à concepção atual da ação de Deus na vida em rede, a cibergraça.

2.2.2 Conceito de graça

Graça é o modo como Deus age em toda a criação, possibilitando ao ser humano participar da essência divina. É através da graça que a pessoa humana pode entrar em comunhão com Deus; por isso, a graça plasma toda a natureza humana.207 A graça possui três dimensões que demonstram sua ligação profunda com a Trindade. A dimensão teológica mostra a unidade entre a criação e a salvação no plano de Deus para a humanidade. A dimensão cristológica remete ao acontecimento do Verbo encarnado, que assume a história humana, e a resposta do homem de estar inteiramente em Deus através de Jesus, o ser em Cristo que o apóstolo Paulo testemunhava: “Pois para mim o viver é Cristo e o morrer é lucro” (Fl 1, 21). A dimensão pneumatológica trata da inabitação trinitária, da comunhão entre os membros da Assembleia e Deus, a graça como obra do Espírito.208 Encontra-se o tema da graça no Antigo Testamento ligado ao tema de Deus. Vê-se a imagem de um Deus criador que se rebaixa à sua criatura com olhar misericordioso e se aproxima ternamente dela para salvá-la.209 O Antigo Testamento relaciona a graça com a Aliança entre Deus e seu povo, manifesta ao longo da história de Israel.210 Assim a graça se une à salvação e à libertação da humanidade. Portanto, a abordagem da graça no Antigo Testamento enfatiza dois aspectos: a benevolência de Deus e o seu dinamismo.211 O termo graça é muito mais difundido no Novo Testamento, pois neste a promessa se concretiza em Jesus Cristo salvador, levando o ser humano e o cosmos à plenitude da graça. Os principais resultados da graça derramada pelo evento Cristo são a adoção filial que Deus
                                                 207 STANCATI, T. Graça. In: Lexicon, p. 325. 208 OLIVARES, R. S. Graça. In: PIKAZA, X. (Org.). Dicionário Teológico O Deus Cristão, p. 380-381. 209 Ibidem, p. 381. 210 STANCATI, T. Graça. In: Lexicon, p. 325. 211 OLIVARES, R. S. Graça. In: PIKAZA, X. (Org.). Dicionário Teológico O Deus Cristão, p. 381.
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concede aos que creem pelos méritos do seu Filho e o início da vivência escatológica.212 A experiência da graça, em Paulo, é trinitária (2 Cor 13,13). Para ele, ser cristão significava ser filho no Filho, tendo uma vida segundo o Espírito que derrama seus dons aos que creem.213 Os Padres da Igreja vão refletir a partir das experiências do Novo Testamento. A graça é vivenciada no Batismo e na Eucaristia e anunciada pela pregação. Neste período a graça é vista como atuação que introduz o ser humano “na relação com Deus, em Cristo pelo dom do Espírito, e na comunidade eclesial, que vive a urgência missionária”.214 Os padres do deserto estavam convictos de que o destino da pessoa humana é a Trindade. Este é o primeiro mistério da graça como dom gratuito: somente no Deus Uno e Trino que o ser humano encontra a si mesmo e sua plena realização.215 Na teologia oriental a graça é vista como obra das três Pessoas da Trindade que diviniza os seres humanos, operação que está unida à Trindade e à economia da salvação. Então, a dinâmica operante da graça deseja a habitação das Pessoas divinas no humano. A graça torna o ser humano realmente livre.216 O evento Cristo assinala o acontecimento da graça na história: “a vida de Jesus entregue como acontecer do reino e doação a Deus”.217 Este acontecer da graça se efetua no batismo e vida direcionada pela fé, esperança e caridade. O que os orientais chamam de energia incriada, os ocidentais denominam graça incriada, refere-se ao processo de divinização em que o ser humano vai sendo revestido com a glória e luz divina, vivificando a presença do Altíssimo em nosso ser, sem confundir o ser humano com Deus.218 Agostinho tornou-se o expoente ocidental da teologia da graça, combatendo o pelagianismo, o jansenismo e a Reforma. Ele que experimentou a graça que vai ao encontro do ser humano e o transforma, vê nela o chamado humano de participar da própria vida de Deus e o desejo do ser humano de unir-se ao Sumo Bem.219 Santo Agostinho acentua em sua teologia a primazia da graça e incapacidade do homem de deixar de pecar sem o socorro divino. A graça é apresentada como aquela que reordena a liberdade humana, direcionando-a para Deus.220 No período escolástico, conservou-se a dimensão teológica e cristológica, porém, aos poucos, foi se perdendo a dimensão pneumatológica da graça que abraça a comunidade de fé,
                                                 212 STANCATI, T. Graça. In: Lexicon, p. 325. 213 OLIVARES, R. S. Graça. In: PIKAZA, X. (Org.). Dicionário Teológico O Deus Cristão, p. 382. 214 Ibidem, p. 382. 215 Ibidem, p. 383. 216 STANCATI, T. Graça. In: Lexicon, p. 326. 217 OLIVARES, R. S. Graça. In: PIKAZA, X. (Org.). Dicionário Teológico O Deus Cristão, p. 382. 218 Ibidem, p. 383. 219 Ibidem, p. 383. 220 Ibidem, p. 384.
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a pessoa e as relações interpessoais.221 No século XV e XVI o quadro inverte: se obscurecem as dimensões teológica e cristológica, enfatizando-se uma graça criada e estática, o que vai desencadear as crises posteriores, como a Reforma Protestante.222 A doutrina da graça de Lutero buscava salvar a graça e a comunhão com Deus, combatendo a coisificação e a estatização, desenvolvendo uma concepção atualista da graça. Já no século XX, o momento de recuperação da compreensão integral da graça se dá a partir da teologia da Escola de Tubinga, onde se destaca a contribuição de Johann Adam Moehler. Ele percebeu que a graça não diz respeito apenas ao indivíduo e a Deus, mas passa pela Igreja, isto é, Moehler recupera o sentido da encarnação como epifania da vida divina, entendendo assim o significado da história da salvação e da Igreja.223 Mais tarde outro importante teólogo que se detém no estudo da graça é Henri de Lubac. Ele se desvia dos fechamentos das teologias agostiniana e tomasiana e reencontra a adequada definição da graça: “Deus que sai ao encontro e, neste dinamismo, se enquadra o que chamamos quer graça atual, quer graça habitual, tanto graça criada quanto graça incriada”.224  Nas últimas décadas o tema da graça foi deixado um pouco de lado, sendo abordado junto com o estudo do mistério trinitário, da encarnação e da pneumatologia. Dos contemporâneos, na área protestante, Karl Barth é o mais representativo. Para Barth, falar de graça significava congregar em uma só expressão a experiência do acontecimento de Deus no ser humano. Deus se dá de presente, pois Deus deseja a pessoa humana e se autocomunica a ela em Cristo Jesus. Por ser imagem e semelhança de Deus, as relações interpessoais também são acontecimentos da graça, como uma autocomunicação entre as pessoas.225 Diante disso, podemos definir a graça como acontecer, como dom, como o próprio Deus em ação revelando o homem ao próprio homem, sua origem e destino. Na Encarnação do Verbo, a graça se faz história e mostra sua dinamicidade na vida do homem. A graça também é presença íntima do Espírito Santo no ser humano que se une ao ser profundo do homem e o transforma. Portanto, a graça pressupõe alteridade, pois Deus e o ser humano se distinguem, e transcendência, como imagem de Deus transformada pela inabitação trinitária, o ser humano é comunhão interpessoal.226
                                                 221 OLIVARES, R. S. Graça. In: PIKAZA, X. (Org.).  Dicionário Teológico O Deus Cristão, p. 384. 222 Ibidem, p. 385. 223 Ibidem, p. 386. 224 Ibidem, p. 387. 225 Ibidem, p. 387. 226 Ibidem, p. 387-388.
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O evento da graça como encontro e comunhão entre Deus e o homem denominou-se deificação ou santidade. Este processo almeja plenificar o ser humano em Deus na esperança escatológica da visão beatífica e da ressurreição dos mortos: “[...] a plenitude da graça é fé qual entrega a Deus e confiança nele; é esperança como olhar para a meta e anseio pelo encontro; é amor por ser desejo de Deus e gosto por ele”.227 A graça é sempre iniciativa de Deus que infunde no ser humano o desejo da busca e da entrega. Dessa forma, a primeira resposta do homem agraciado é a ação de graças.228 Por essa proximidade da doutrina da graça e da teologia trinitária, principalmente no que se refere ao modelo comunial, este estudo abordará esses temas em conjunto. A cibergraça será a comunhão do Espírito nos tempos da rede, a ação de Deus no homem e no mundo marcado pela lógica e dinâmica da rede.

2.2.3 Cibergraça: entre tecnologia e espiritualidade

A mudança de época em curso não é causada pelas tecnologias digitais, pura e simplesmente. “Nós damos forma a nossas ferramentas e elas, por sua vez, nos moldam”.229 Dessa mútua interferência, surgem mudanças antropológicas significativas que transformam o modo como o ser humano se relaciona com o mundo físico e com a sociedade; seu senso emocional e psicológico de quem é e de saúde mental; a maneira como desenvolve seu raciocínio lógico em termos da linguagem informática. Se tudo ao redor é afetado pela cultura digital, é ignorância pensar que a vida espiritual está isenta dessa influência. “Os computadores que criamos estão nos fazendo avançar na nossa trajetória evolutiva. É nossa responsabilidade carregar o nosso entendimento do sagrado junto conosco”230. O ritmo frenético da vida digital não está permitindo que a reflexão sobre a realidade tecnológica acompanhe os passos rápidos de sua própria evolução. Para que a cibercultura possa contribuir positivamente para o desenvolvimento humano, é preciso fazer o que o próprio termo cultura representa: cultivar, isto é, o ser humano precisa cultivar-se dentro das novas dinâmicas do mundo. Se essa maturação não acontece, a “cultura líquida” do digital pode se tornar um fator de alienação do humano.  Assim como os computadores podem revelar novas facetas da humanidade, também ajudam a elaborar novas compreensões de Deus. Para Jennifer Cobb, a teologia é o processo de
                                                 227 OLIVARES, R. S. Graça. In: PIKAZA, X. (Org.). Dicionário Teológico O Deus Cristão, 388. 228 Ibidem, p. 389. 229 COBB, J. Cybergrace, p. 20. 230 Ibidem, p. 22-23.
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canalização da profundidade do ser humano, descobrindo sua humildade e habilidades em face de mistérios impressionantes que só se pode começar a se aproximar.231 Cobb acredita que incluir neste processo cognitivo o estudo da tecnologia e cultura digital só pode enriquecer ambas as áreas. A visão sagrada do mundo foi drasticamente deteriorada com a expansão do pensamento cientificista e materialista moderno.232 A natural concepção do cosmos como lugar sagrado, de toda a criação inebriada da presença de Deus, que existia na Idade Média, foi aos poucos sendo substituída por um dualismo radical, ou a favor da matéria, ou a favor do Espírito. A Reforma Protestante de Lutero ajudou a lançar as bases para uma visão de natureza mecânica e secularizada, abrindo caminho para a constituição da sociedade científica destituída da presença de Deus que testemunhamos nos tempos modernos.

A sociedade científica que estas tendências produziram deixou pouco espaço para uma fé plenamente integrada nos mundos orgânico e tecnológico. Libertado das amarrações dos nossos símbolos religiosos e normas, tornou-se como o universo onde modelamos indivíduos autônomos que se deslocam através de um mundo sem valor.233

O mundo contemporâneo ainda sofre as consequências do divórcio moderno do espírito e da matéria, mas a invenção da internet está revigorando a esperança de reconciliação entre dimensões tão essenciais da vida humana. A primeira frase da Carta Magna da Era do Conhecimento diz que o evento central do século XX foi a derrubada da matéria.234 Se está diante de um momento histórico em que as crenças modernas, segundo a qual o universo é constituído por partículas físicas que podem ser mapeadas, descritas, comprovadas e controladas experimentalmente, estão sendo suprimidas por uma nova lógica de compreensão fundamentada na precedência dos acontecimentos não físicos, informações, comunicações, relações, experiências dinamicamente conectadas em um ambiente invisível, infinito e desterritorializado chamado ciberespaço.235 Jennifer Cobb conta em seu livro Cybergrace que, antes de começar a escrevê-lo, ela teve uma experiência da presença divina interligando-a ao mundo digital e instigando-a a pensar a rede teologicamente.236
                                                 231 COBB, J. Cybergrace, p. 23. 232 COBB, J. Cybergrace, p. 25. 233 Ibidem, p. 29. 234 DYSON, E.; GILDER, G.; KEYWORTH, G.; TOFFLER, A.: A Magna Carta for the Knowledge Age. Disponível em: <http://www.pff.org/issues-pubs/futureinsights/fi1.2magnacarta.html>. Acesso em: 10 de nov. de 2014. 235 COBB, J. Cybergrace, p. 30. 236 Ibidem, p. 34.
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A teologia do ciberespaço começa por tentar fundir os mundos objetivo e subjetivo, o tangível e o intangível. Isto requer que nós expandamos nossa noção de espiritualidade para incluir a máquina, que é tradicionalmente o baluarte da ciência. Isto exige também que nós alarguemos nosso entendimento científico para incluir nele a noção de uma inefável força de conexão trabalhando no reino do tangível e do objetivo.237

Este esforço de perceber a unidade entre realidade material e espiritual precisa partir também do campo científico. As pesquisas de Charles Darwin, que era deísta, levaram-no a descobrir um mundo inacabado em processo de evolução. Essa descoberta o levou a pesquisar durante toda a sua vida uma maneira de reconciliar o seu conhecimento com o seu Deus, mas sem o sucesso esperado.238 O problema é que Darwin permaneceu com a ideia de um Deus extremamente determinista que era incompatível com a ideia de evolução ao “acaso”. No entanto, muito filósofos pré-darwinianos conseguiam perceber uma força divina neste movimento criativo de diversificação e complexificação de todo o cosmos.   Filósofos como Friedrich Schelling definiam a evolução como o movimento do divino em direção ao divino, um fluxo bidirecional do espírito inerente na matéria e do espírito transcendente um ao encontro do outro.239 De acordo com Jennifer Cobb, espírito é por definição a força que conecta.240 Ela se baseia no pensamento teológico-científico de Pierre Teilhard de Chardin que acredita que o Espírito Criador interliga todas as realidades existentes na terra conduzindo-as num processo evolutivo rumo a sua plenificação, ao ponto ômega. Esse processo é chamado de “cristificação do universo”.241 Isso não nega as descontinuidades ocorridas na história do mundo, apenas confirma que também existe continuidade no desenvolvimento dos seres. Sendo assim, matéria e espírito são dois aspectos dessa única realidade cósmica que é o processo criativo do Espírito em ação no mundo.242 Essa visão aponta para uma compreensão radicalmente nova do Criador. O Pai não governou lá do alto, determinando todos os resultados. Deus “empoderou” suas criaturas através da própria natureza criativa, realizando um contínuo processo de evolução e transcendência criativa. Essa concepção permite a integração entre o conhecimento científico e a perspectiva espiritual da evolução da consciência e do desenvolvimento do universo.243
                                                 237 COBB, J. Cybergrace, p. 35. 238 Ibidem, p. 36. 239 Ibidem, p. 39. 240 Ibidem, p. 40. 241 TEILHARD DE CHARDIN, P. O meio divino, p. 29-30. 242 COBB, J. Cybergrace, p. 41. 243 Ibidem, p. 42.
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Isso traz uma contribuição muito importante para o fazer teológico. A teologia mais tradicional, proveniente principalmente da Europa, enfatiza a ação e a comunicação de Deus num movimento de cima para baixo, uma transmissão hierárquica bem demonstrada também no pensamento eclesiológico clássico. Em contrapartida, as teologias da libertação, desenvolvidas especialmente na América Latina, preocupam-se com a dinâmica de baixo para cima, a manifestação de Deus e da fé na práxis social.  Não há modelo perfeito, não há metáfora que abarque toda a realidade da Revelação divina, pois Deus continua sendo mistério. Por isso, não se deve ser fundamentalista de um único modelo, de uma única visão de mundo e de teologia, sob pena de acabar cometendo um erro semelhante ao do modernismo: escolher uma dimensão em detrimento da outra. A ciberteologia não é uma teologia de cima para baixo nem de baixo para cima, mas converge tudo no modelo “peer-to-peer”, ou seja, de nó a nó, de lado a lado, de pessoa a pessoa. A dinâmica de ponto a ponto da rede geralmente é vista como horizontal, mas na verdade é como a comunicação das células no organismo. Não há apenas células laterais, mas em todas as direções, tanto na superfície e quanto no interior do corpo. Sendo assim, a cibergraça corre através de cada pessoa, célula viva do Corpo Místico de Cristo. Spadaro pondera que a graça de Deus desce do alto, mas ativa um processo. Como a chuva desce do céu, mas não retorna sem produzir seu fruto (Is 55,10-11), assim também a Palavra de Deus que se encarna, deve ativar o movimento de baixo para cima. Para ele, o problema não está no modelo de cima para baixo, mas em entender o seu efeito.244 A dificuldade é que nosso esquema mental é bidimensional, no máximo tridimensional. Porém, o agir trinitário no cosmos é pluridimensional, ou melhor, como o ciberespaço nos auxilia a perceber, é transdimensional e transtemporal, pois ultrapassa o tempo e o espaço. Podemos também utilizar a imagem da espiral para demonstrar que a Revelação é um processo vivo e dinâmico que ocorre na História, mas é “transhistórico” porque envolve as pessoas humanas e divinas no tempo e na eternidade. Para Cobb, o ciberespaço reflete essa verdade sagrada e fundamental ao criar um mundo de experiências ricas e diversas oriundas do não-físico, de eventos criativos que se desenrolam no tempo. Assim, o ciberespaço pode guiar as pessoas na reconciliação do maior cisma do mundo moderno: a separação entre ciência e espírito, entre o mundo orgânico e o mundo que o ser humano cria.245 Tudo isso remete a duas questões fundamentais no que se denomina
                                                 244 Formação dada por Antonio Spadaro aos consagrados, colaboradores e estudantes da Canção Nova ocorrida, de 28 e 29 de julho de 2014, em Cachoeira Paulista, SP. 245 COBB, J. Cybergrace, p. 43.
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cibergraça: Deus pode habitar no ciberespaço? Como Deus age e dialoga com seus filhos no mundo contemporâneo? Jennifer Cobb percebe que o ciberespaço, como um aspecto criativo da evolução, é tecido em nossa realidade física e que o processo criativo é a sua alma. A teóloga acredita que se nos permitíssemos entender o mecanismo do ciberespaço mais profundamente, abrangendo a sua sacralidade, poderíamos experimentá-lo como um meio de graça.246 A partir dessa compreensão seria possível começar abarcar a totalidade do mundo tanto em seu aspecto natural quanto em seu tecnológico. Cobb defende que a evolução da matéria e a evolução do espírito devem ser consideradas em conjunto, apesar de cada uma seguir seu próprio curso. Ela ainda crê que o ciberespaço tem um papel fundamental a desempenhar na ação dinâmica do Espírito através do universo. A ciberteologia não é uma teologia da comunicação ou da tecnologia, mas um estudo teológico sobre a vida hipercomunicativa, hiperconectiva e hipertecnológica que os seres humanos estão vivendo. Entretanto, para entender bem a experiência humana de fé e de graça no ciberespaço é necessário perceber o sentido teológico e espiritual da tecnologia. É como se comparava anteriormente o significado de “house” e de “home”. “House” é a estrutura da casa que possibilita o “home”, a experiência do aconchego do lar, da família, de ter um lugar que é seu, que tem seu jeito, seus bens, onde você sempre pode voltar. Sem o “home”, “house” perde seu sentido, é apenas uma construção desabitada, sem rosto. Com isso, se quer dizer que não se pode refletir sobre a experiência da graça na rede sem antes estudar a dimensão espiritual dos alicerces do ciberespaço, portanto, sem ver a tecnologia como fruto do espírito e do carisma humano de ser artífice da criação. A técnica é ambígua, pois o ser humano a manipula livremente tanto para fazer o bem quanto para o mal. Justamente essa liberdade que torna a tecnologia dúbia, também demonstra a ligação entre graça e tecnologia. De acordo com Spadaro247, a técnica demonstra e ratifica o senhorio do espírito sobre a matéria. Assim, a tecnologia se constitui como a força de organização da matéria, obra do plano consciente do ser humano como ser espiritual. Em 1964, Paulo VI afirmou, em visita ao Centro Jesuíta de Automação do Aloisianumde, que o cérebro mecânico foi criado para auxiliar o cérebro espiritual.248 O Centro estava organizando a apreciação eletrônica da Summa Theologica de Tomás de Aquino e dos textos da Bíblia. Nesta mesma ocasião, Paulo VI define teologicamente a tecnologia como o empenho de infundir em máquinas o reflexo de funções espirituais.249 Com isso, a tecnologia se torna uma reposta humana ao mandato de Deus de cuidar e transformar a criação. O Espírito Criador ainda cobre o cosmos inspirando a criatividade do ser humano.  Sendo assim, a inspiração que tanto é cara e proveitosa em todas as áreas do agir e pensar humanos é manifestação da dimensão pneumatológica da graça, isto é, uma abertura espiritual através da qual o Espírito Santo opera no ser humano e por meio dele. O instante da inspiração é uma experiência comunial em que ocorre o encontro entre a intenção do homem e o anseio do Espírito do Pai, a adesão do intelecto daquele à inteligência divina, momento em que sua semelhança com o Criador se manifesta. A tecnologia é um modo de o homo tecnologicus expressar sua sede pelo transcendente. Portanto, “o homem tecnológico é o homem espiritual”.250  Pierre Teilhard de Chardin é o primeiro homem de fé e homem da ciência a tentar reconciliar essas duas áreas humanas de conhecimento na época moderna. Ele compreendeu e buscou comunicar que todo o trabalho e esforço humano colaboram para a conclusão da obra do mundo em Cristo. “[...] nenhum homem ergue o dedo mínimo para a menor obra, sem estar movido pela convicção [...] de que ele trabalha [...] para a edificação de algo definitivo, [...] para vossa própria obra, ó meu Deus”.251 Conforme Chardin, a reta intenção do coração é a chave pela qual nosso mundo interior se abre à presença de Deus. 

Em cada alma, Deus ama e salva parcialmente o mundo inteiro, que esta alma resume [...]. Deste modo, cada homem [...] por sua fidelidade [...] deve construir uma obra, um opus, em que entra alguma coisa de todos os elementos da Terra. Ao longo de todos os seus dias terrestres ele faz a sua alma; e, ao mesmo tempo, ele colabora para uma outra obra, para um outro opus que ultrapassa infinitamente [...] as perspectivas de seu êxito individual: o acabamento do mundo. [...] Através de nossos esforços individuais [...], o mundo acumula lentamente, a partir de toda a matéria, aquilo que fará dele a Jerusalém celeste.252

O paleontólogo jesuíta acreditava que entre o ser humano, o universo e Deus havia uma profunda ligação. Ele dizia que no interior do mundo, toda alma foi criada para Deus. Entretanto, toda realidade, material e imaterial, existe para a subsistência da vida humana.
         Dessa forma, toda a realidade sensível existe para dar glória a Deus, através da alma do ser humano. A razão disso é que o homem é parte do único ambiente divino pelo qual Deus quis se autocomunicar, onde todas as realidades tangíveis são prolongamentos do ser humano no mundo. Da mesma forma que se diz que não é possível separar “home” de “house”, experiência humana vivida no ciberespaço de sua estrutura tecnológica, Chardin pondera que não dá para apartar o ser humano de seu habitat, de sua realidade material e espiritual. O ser humano é um ser no mundo. Não é do mundo, mas está no mundo (Jo 15, 19; Jo 17, 14-16). Por isso, o progresso e a técnica devem ser encarados como dons do Espírito Santo que auxiliam a pessoa humana a se tornar cada vez mais imagem e semelhança de Deus.  No entanto, é preciso avaliar de forma crítica a realidade contemporânea. Embora os avanços tecnológicos tenham trazido grandes conquistas, também ocasionaram alguns transtornos como o excesso informacional (information overload), a apatia e a dispersão que trazem prejuízos à vivência espiritual. Na opinião de Spadaro, o ser humano precisa redescobrir o valor e o significado do discernimento, isto é, fazer uma busca interior a fim de encontrar em si mesmo um centro espiritual que distinga as questões que são realmente importantes das inúmeras respostas e estímulos que são recebidos todos os dias.253 A graça é um favor divino que possibilita à natureza humana participar da vida íntima do Deus Triuno, introduzindo a pessoa humana em relação filial com o Pai, através da dignidade recebida do Filho Unigênito, marcada com o selo do Espírito Santo.254 Portanto, a graça é um caminho de relação, onde Deus dá o primeiro passo em direção ao ser humano, dando-lhe a providência necessária para que percorra este caminho e viva de forma plena a sua humanidade, fortalecendo-o, transformando-o, plasmando-o de vida para chegar a este encontro com as pessoas divinas.255 Para Spadaro, o ciberespaço é o lugar do dom. Ideias e conceitos como compartilhamento de arquivos, software livre, opens source, creative commons, user generated contente e rede social estão ligados a uma lógica de troca que beneficia as partes envolvidas, desviando-se da ideologia capitalista do máximo lucro.256 Se o conceito de livre troca for analisado sob a perspectiva teológica, apresenta alguns problemas, já que a natureza da Igreja e a dinâmica da Revelação seguem um modelo hierárquico semelhante ao da comunicação de massa, que Pierre Lévy chama de “Universal com Totalidade”257, e que seria o contrário do padrão “peer-to-peer”. O movimento comunicativo da Revelação não se baseia em uma troca horizontal fluída, mas abre-se para uma graça perene, conduzida através das mediações humanas e ministros ordenados. Na opinião de Spadaro, se o raciocínio parasse neste ponto, se correria o risco de concluir que a lógica da rede é incompatível com a lógica da teologia.258 A concepção do dom na rede está vinculada ao conceito denominado grátis. O grátis é aquilo que não tem “valor”, não precisa pagar, algo que pegamos livremente. A graça, ao contrário, foi dada a alto preço por Deus e recebida por um sujeito específico, estabelecendo uma relação pessoal. Entretanto, a graça se difunde através de mediações encarnadas e propagase de uma forma semelhante a do “peer-to-peer”, mas não se restringe a esta, porque o modelo “peer-to-peer” possui uma lógica de conexão e de troca, não de comunhão. Um rosto não pode ser diminuído a um simples nó. Sob essa diferença fundamental entre face e nó, se funda o desafio cristão de fazer com que, de um ambiente conectivo, a rede passe a ser um lugar de comunhão.259